domingo, 12 de dezembro de 2010

Leituras que faço, fiz, estou fazendo


A maioria de nós ainda acredita que nossas lembranças refletem com precisão os acontecimentos do passado e que essas memórias são permanentes. A notícia ruim é que o passado, para nós, não é um registro objetivo, mas sim constituído de memórias reconstruídas, e essa reconstrução é influenciada fortemente pelas atitudes, crenças e informações de que dispomos no presente. Essa característica reconstrutiva do passado é importante de ser compreendida, afinal, isso implica no fato de que o que pensamos e sentimos hoje influenciará fortemente a forma como nos lembraremos de nosso passado.”



O segredo de Ebbinghaus. Como uma simples descoberta sobre a memória muda tudo o que você sabia sobre gestão de marcas. Gian Franco Rocchiccioli, São Paulo, Alfaiatar, 2010.

domingo, 14 de novembro de 2010

por que viajar e sair mundo a fora

Ontem assisti a "John Rabe", em DVD que comprei em minha última viagem. Sempre no meu patético esforço para adentrar na língua de Goethe. É claro que ao assistir a um filme, mesmo se for falado em banto, as imagens acabam se sobrepondo à compreensão dos diálogos.

John Rabe foi um executivo da Siemens em Nanking, China continental. Típico exemplo de overseas management staff ou, se preferirem, da globalização neocolonialista. Naturalmente, em 1937, deveria estar inscrito aos quadros do NSDAP, para ter mínimas chances de sucesso na carreira profissional mesmo sendo civil. Nós, brazukas, sabemos o que um governinho ajeitado arruma ou desarruma p'ras empresas do amigos e dos não tão amigos. Desde Vargas, não é, não? Afinal foi o tal quem disse "para os amigos tudo, para os indiferentes a lei", ou não foi?

O filme narra, em chave emocional e com participação de Steve Buscemi (que primeiro vim a conhecer em "Reservoir Dogs", do mestre Tarantino), Daniel Brühl ("Goodbye Lenin!"; "Inglourious Basterds", Tarantino, wieder einmal), Ulrich Tukur (inteiramente desconhecido se não tivermos um mínimo de informação sobre a cena cultural alemã), um tal de "Massacre de Nanquim" que é também conhecido no mundo anglo-saxão por "The rape of Nanking". Parece condensar bem os fatos ocorridos então, não? A invasão da China pelo exército japonês em 1937. Há uma cena chocante no filme. Durante um ataque aéreo japonês, Rabe estende uma enorme bandeira nazista sobre dezenas de chineses aglomerados no pátio de sua fábrica Siemens, empregados ou não ali, com isso afastando o bombardeamento e o morticínio pelos caças japoneseses. Manobra visual e cênica para humanizar o nazismo ou emprestar-lhe um álibi, ao menos pontual? Difícil dizer, sem conseguir decifrar os diálogos e seguir a evolução da trama também literalmente.

Ao final, fica a idéia de que indivíduos sempre contam, ainda que o esforço de John Rabe e de outros não-chineses que participaram de sua epopéia talvez tenham servido, apenas, para a "contenção de danos".

John Rabe deixa a China, retornando para a Alemanha nazista em 1938. A ocupação da China pelos japoneses prosseguiu, a guerra no Pacífico teve início e há outros filmes a respeito ("Império do Sol", dirigido por Steven Spielberg e com roteiro baseado no romancem semi-autobiográfico de J.G. Ballard, por exemplo; "Merry Christmas, Mr. Lawrence"; "Cartas de Iwo Jima") e romantização dos fatos históricos para todos os gostos.

Consultando a Wikipedia sabe-se haver um revisionismo a respeito do tal estupro de Naking e até quem negue sua ocorrência.

http://pt.wikipedia.org/wiki/John_Rabe

http://www.imdb.com/title/tt1124377/

sábado, 31 de julho de 2010

De volta à pátria: bota os óculos pr'á enxergar!


Consumo para todos!

É a palavra de ordem que já superou aquela de "os filósofos já explicaram o mundo, agora é preciso transformá-lo!" A grande transformação virá pelo consumo possível para todos. Que aliás inclue tb produtos culturais e de comunicação, como livros, jornais, internet, iPad, celulares pré e pós-pagos, com 3G, óperas, balé, cinema e teatro, viagens, Love Parades em locais seguros (não podia deixar passar um taco desses na eficiência e precisão germânicas ...), boa escola, bom nível de escolaridade, alimentação saudável e de qualidade.

Aliás, vou te contá! Isso aqui é o atraso! Hoje - já tô de vorta aos bruzundangas -, naturalmente, a funcionária lá em casa apresentou a lista de compras para a semana (que os sacaninhas dos meus filhos devem ter imaginado eu não poderia ficar sem ela ao retorno ...). Passara 29 dias longe deste nosso paisinho e então achei que seria um bom exercício de volta ao lar.

Aquela porrada de gôndolas todas cheias de produtos em quantidade repetida, de mesmas cores e materiais, sem brilho, sem apelo, de baixissima criatividade visual. É difícil perceber isso, pois já estamos habituados ao mesmo e só quando se passa quase um mês entrando dia sim dia não em um autoserviço extremamente agradável ao sentidos, ao tato, ao olfato (à audição, inclusive, pois não há ninguém lá fazendo oferta-relâmpago), e, graças a hoje quase instantaneidade da mudança de fuso horário e quadrante, 48 horas depois - exatamente entre a última entrada num supermercado ou auto-serviço de Berlim e a próxima, agora no Walt-Mart e no Extra de Bsb - vc sai, pra dar a idéia, da Bellini e entra no Tatico de Águas Lindas.

E num tô reclamando da caixa não ser uma alemãzona de meia-idade (com quem apenas consigo interagir escassamente) e olho azul (o caixa q me atendeu aqui no Walt-Mart, como é a regra nos locais onde geralmente compro, era gentilissimo e meio mulato, meu tipo brasileiro ideal!). Tô reclamando das verduras não tão atraentemente e bem empacotadas em porções exatas para uma, duas, quatro pessoas, em plástico transparente brilhante e resistente; dos pacotes pouco resistentes de produtos industriais e que, com o soro do queijo de minas (cuja embalagem era vagabunda) vasando, encharcou e começou a rasgar nas arestas; tô reclamando da confusão na esteira do caixa entre minhas compras amontoadas e as do cliente que viria em seguida. E este aqui foi o detalhe fundamental e decisivo para a minha iluminação, o insight: não vai ter consumo para todos enquanto não se racionalizar os processos sociais e isso só com muita, mas muita educação, investimentos na escola e na mudança de condutas e comportamemtos inter-pessoais. Em Berlim, independentemente do tamanho da compra - e não vi ninguém fazer compra que enchesse um carrinho de supermercados pequenos daqueles nossos; dos grandes e dos jumbos, então, acho que juntaria alemão para tirar fotos se vissem um exemplar! - cada cliente coloca uma travezinha quadrada ou triangular após seus volumes serem dispostos na esteira, demarcando o que irá comprar, no formato daquelas réguas de medir tecido de madeira, sabe? (no comprimento é um pouco menor que a largura da esteira, logicamente) e leve e maneira. Isso tem aqui, alguém vai dizer. O detalhe. Ao longo da esteira, do lado oposto ao do cliente, tem um nicho, um degrau, um ressalto, onde essas travezinhas cabem exatamente e por serem revestidas de algum material anti-aderente e a superfície desse nicho ser também anti-aderente, deslizam por ali quando arremessadas pelo caixa ou pelo próprio cliente e até o início da esteira! Um ovo de colombo. Tudo organizado. Se vc esquecer de colocar a sua travezinha a alemã na caixa faz um muchocho e põe a trave ao final das compras ou, o que é menos ruim, quem o faz é quem vier atrás.

Se algo simples, comum, rotineiro, e estressante como fazer as compras do dia a dia em supermercado conta com um dispositivo racionalizador e simplérrimo desses, imagina o resto. Alguém vai dizer q isso não faz diferença, é um detalhe, coisa e tal. Bom, a vida é feita de detalhes, e o demônio está nos detalhes. E pr'á num discutir muito e deixar barato, tá bão, então, é um detalhe de merda como tanta coisa neste nosso país, mas e a qualidade dos produtos de lá?

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Dining in The Dark

Dining in The Dark

Unglaublich! Unvergesslich!!!

A experiência esta noite foi única, quase indescritível (senão, o que estaria fazendo ao escrever para vocês?)

Fomos jantar no Unsicht-Bar (cuja tradução seria algo como "totalmente invisível", sendo que o sufixo "bar" tanto passa por "Bar" quanto pela desinência "mente", adverbial modal nossa). O que é isso?

Pois é. Um local para jantar onde os garçons são deficientes visuais, portanto prescindem do sentido da visão, ou quase. Quem nos recebeu parecia enxergar, mas admitiu ser deficiente visual também. E era meio brasileiro, filho de mãe pernambucana, pai alemão, nascido no Sul da Índia! Nosso garçom chamava-se Marcus, cego ou quase. Você é levado para um ambiente absolutamente escuro. Visibilidade 0! Você fecha os olhos e abre, não faz diferença, nada se vê ou se distingue. Você é servido e come assim. Naturalmente, antes, na ante-sala, foi-lhe apresentado o cardápio para escolha, e leitura. Sim, antes vc enxerga e o ambiente é normalzinho. Após ser levado para a mesa, só se pode confiar no tato, no paladar e na audição. Sim, também no olfato. Aliás, paladar e olfato são - à parte a visão - os sentidos essenciais para os prazeres da mesa.

Primeiro, fomos apresentado ao garçom - no nosso caso, Marcus - e entramos no recinto, fazendo fila indiana, apoiando a mão no ombro dele. Ele até andava rápido para meu gosto e girava para um lado e para outro, provavelmente contornando mesas, cadeiras, colunas, quem sabe? A primeira impressão foi de pavor. E se minha mão escapasse do ombro de Marcus? e se Elizabeth perdesse contato comigo? como encontrar de novo o rumo e o norte? Só gritando por socorro e ficando estático.

Levados até a mesa, fomos literalmente sentados em nossas cadeiras, um de cada vez. Marcus nos levou até a cadeira, pelos ombros e sentou-nos. Levou alguns minutos até nos orientarmos (é ... o sentido de desorientação é total). A escolha dos pratos já havia sido feita, então era esperar. Não há o processo de habituar-se com a escuridão. Você é, ou está, na mais completa escuridão. (Já tive experiência semelhante, quando era cavernícola ou espeleólogo, logo que cheguei em Bsb). O que há é um processo de adaptar-se a fazer o que normalmente se faz vendo, sem ver. A um certo ponto, virei criança. Passei a mão no prato para ver se ainda havia algo o que comer. Minha escolha havia sido o Überraschungsmenu que teoricamente fica por conta do chef. Havia a opção de pedir também uma sopa, mas achei que ia dar em merda tomar sopa no escuro. É difícil usar os talheres para comer uma salada. E o prato principal também, por você não saber exatamente o que é que vai e como vai levar à boca. A sobremesa, então, foi festa total. Era muito saborosa, mas complicada. Um creme, talvez brûlée, com uma forminha de chocolate fondant (que descobri por acaso), com uma confiture de frutas de bosque ou frutas vermelhas (quem sabe o que seriam, sem vê-las? pelo paladar, para mim, são indistiguíveis). Literalmente, lambi os dedos. Também, ninguém me via!

Depois de algum tempo e tendo, já, comido a salada de entrada, você se descontrai, a conversa flui a respeito de temas variados (você deixa de falar sobre como é estranho, sensacional, esquisito - em espanhol - comer do jeito que está comendo), e quase se esquece de estar totalmente às cegas! Em torno a você, muitas vozes, ruídos, às vezes algo que cai no chão, pelo menos uma vez alguém quebrou alguma coisa - uma garrafa, talvez - risos e estalos de dedos! Sim, os garçons estalam os dedos quando circulam para avisar uns aos outros que chegam, se aproximam, estão em ação e assim evitam encontrões, esbarrões, e acidentes diversos. Marcus (talvez, os deficientes em geral sejam assim) foi muito atencioso, carinhoso até, pois, trazendo cada prato ou serviço, avisava em voz alta, procurava sua mão e a levava até o prato, a taça de vinho, o talher. Elizabeth recebeu dele um abraço, após ser servida. Parecia realmente haver um enorme prazer em servir e nos atender. Em todos os momentos, desde que chegamos ao restaurante. Não havia pressa. Havíamos chegado sem reserva, disseram-nos que talvez meia hora de espera fosse o tempo para o atendimento, enquanto isso ficamos no bar e tomamos um prosecco (eu havia pedido um sekt, mas disseram que havia somente prosecco). Não levou tanto tempo. Mas passamos ali quase duas horas e meia de absoluto prazer de viver.

Voltando a Berlim, voltarei com certeza ao Unsicht-Bar. Até fiquei amigo do mâitre 1/2 brasileiro!

Esses argentinos ...

Cês num vaum acreditá no que ouvi e vi, agora, no Das Erst TV!!! Westdeutches Rundfunk (é uma TV pública alemã, gerida por um consórcio de entidades de telecomunicação regional. As regiões, ou províncias, aqui têm mais autonomia do que, no Brasil, os estados). Os argentinos criaram uma Disneylandia religiosa nas proximidades de Buenos Aires! (foi descrita assim pelo Schultz ...). Não deu para entender o que fosse exatamente, mas pelas imagens é uma Via crucis encenada, ou uma reunião de ícones católicos, com construções, cenários, estátuas, tudo meio kitsch. Estou assistindo a um programa televisivo, que incluo nos meus exercícios diários para desenvolver o conhecimento da língua de Goethe. Interessantíssimo! É uma gincana. Como faço uma porrada de coisas ao mesmo tempo, tudo com a televisão ligada (tomo banho, faço a barba, faço um relaxamento para a minha dor ciática, organizo um lanchinho para acompanhar o espumante, sekt ou o champagner do dia ... , revejo o mapa da cidade para identificar por onde andei e por onde pretendo andar no dia seguinte, surfo na internet, blogo, escrevo e-mail) não tenho certeza de ser um programa só ou vários em seguida, ou blocos de um mesmo programa. O bom nele é que os caras falam, as perguntas feitas aos participantes são escritas, com as alternativas de resposta também escritas, aparecendo na tela (um Quizz, aliás este é o nome do programa), o que me facilita saber o que está acontecendo ali, além de receber um banho de cultura inútil, na maioria das vezes, e de informações gerais no mais das vezes esquecidas (por exemplo, soube q a Venezuela recentemente filiou-se à OPEP; isso acho que eu havia lido antes em algum jornal tempo faz; que o Mar Morto é o corpo de água interior mais abaixo do nível do mar que existe no mundo - essa eu não sabia, pois apostava que o Mar Morto fosse o mais salgado corpo de água existente, portanto dei a resposta errada. O melhor é compreender tanto a pergunta escrita quanto as alternativas, também relacionadas na tela. E tem uma cidade arqueológica na Jordânia de nome Petra. Uma mulher que está concorrendo explica que a pronúncia deve ser "PetrÁÁÁ". Entender em profundidade e extensão o que o animador e os participantes falam - e como falam! - já é outra conversa).

Los hermanos conseguiram fazer alguma coisa com mais visibilidade global do que a Via Sacra lá de Planaltina, DF, a Paixão de Cristo em Nova Jerusalém, Pernambuco, Aparecida do Norte em São Paulo, e, daqui a pouco, passa à frente do Cristo Redentor!

A verdade é que a quantidade de informação que chega pela TV aqui é enorme e muito diversificada. Ligo a televisão logo que acordo e tomo a minha primeira dose de soap opera, que aqui também se chama igual, " seifeoper ". Quando retorno, no final do dia, ligo a TV e só desligo para dormir , quando não acordo para desligar a TV. Mas, a quantidade de informação que chega pelos diversos canais vai desde como montar e decorar o primeiro apartamento de um jovem casal até os problemas de quem, idoso, aposentado e carente, não tem uma cobertura de saúde suficiente e adequada às necessidades, e passa por visita de crianças ao zoológico, problemas de integração escolar de jovens turcos ou libaneses imigrados para a Alemanha, e como fazer um prato sofisticado sem aparente grande esforço. Sem falar que em outras noites houve programas focados em atores alemães pouco conhecidos no Brasil, como Ulrich Tukur, que fez um papel de coadjuvante em " Das Leben der Anderen " ("A vida dos outros"), Hildegard Knef, Katharina Thalbach (que fez uma ponta em O Tambor, de Völker Schlöndorff, aquela história do menino que se recusa a crescer durante o nacional-socialismo na Alemanha) e Romy Schneider (que era austríaca, tudo bem, mas quem de nós consegue distinguir um austríaco de um alemão, sem perguntar onde ele nasceu? Romy Schneider pontificou entre Viena, Berlim e Paris, segundo o panfleto da exposição do Deutsche Kinemathek Museum für Film und Fernsehen, Potsdamer Platz, Sony Center, "die Austellung verlängert bis zum 29. August 2010") . A propósito, parece que a gincana aqui no Das Erste chegou ao seu final com o vencedor. Tô vendo um casal sendo cumprimentado e recebendo flores. Vou voltar a assistir o programa. Tchüss!!!

sábado, 10 de julho de 2010

Abendessen zu Guy

Ontem jantamos no Guy restaurant am Gendarmenmarkt. Harmut Guy, o proprietário, apresenta-se como sendo ator e gastrônomo (Schauspieler und Gastronom). Marcus Zimmer é o Küchenchef. Não exigem fazer reserva mas pode ser recomendável fazê-lo. O endereço é Jäggerstrasse 59-60. Entra-se por uma galeria pequena e o restaurante é ao fundo do pátio interno do prédio, onde no verão as mesas também ficam e se tem o céu ao alto.

Foram cinco pratos, incluindo a sobremesa, acompanhados, cada um, por uma taça de vinho harmonizado e por um preço único, fora água e café. A seqüência de cinco pratos custava Euro 69,50. Aceitam cartões de crédito. Acho que foi uma combinação entre neuf cuisine e influências de Adrián Ferrá. Bela experiência, que vale repetir. Na mesa ao lado outro casal pediu pratos que escolheu.

Um pequeno vídeo promocional do Guy:

http://www.superillu.de/superillu-tv/video-Hartmut_Guy_1039090.html